Lígia
odiava a ideia de ter que reabrir a oficina de Osvaldo.
Havia
trancado o lugar com um cadeado gigante, agora enferrujado. Queria,
com isso, evitar ter que lidar com o luto de mais uma forma, algo com
que já lidava em tantas esferas de sua vida familiar, e prevenir
acidentes com os filhos. Osvaldo era um homem adulto e morreu ali,
pelo que todos concluíram, graças a um descuido durante o trabalho.
Quem poderia dizer quais perigos ainda estavam ali?
Com
calma pegou a chave de dentro de um móvel bem alto em seu quarto,
onde ficava escondida, e se dirigiu à oficina. Não precisava ter
pressa, seus filhos estavam na escola.
Colocou
a chave no cadeado com algum esforço, pois a ferrugem também
atingira o interior do objeto. Girar foi mais fácil e fez com que
caísse do cadeado uma pequena quantidade de um pó metálico
laranja. Um puxão pra baixo e o cadeado se desfez em dois, irritando
Lígia, que juntou as duas partes o melhor que pôde e o pendurou na
ilhota onde prendia os dois lados da porta e a empurrou.
Não
se lembrava da oficina como um local escuro e poeirento, mas agora
era um local escuro e poeirento. Acendeu um lampião que ficava em
cima da mesinha ao lado da entrada, pois a lâmpada no teto não
funcionava mais, e percorreu o lugar, recordando o que havia ocorrido
dois anos atrás. Não sentia necessidade de ficar triste, apesar da
melancolia que se abateu sobre ela: sabia que precisava estudar o
local, escolher os planos das invenções que parecessem mais
prováveis de serem vendidas e tudo isso teria relação com o futuro
dos filhos.
Não
podia fraquejar, precisava ser uma ótima mulher de negócios quando
fosse vender os esquemas, mas essa atitude precisava começar agora:
sabia que homens de negócios não sabem lidar muito bem com esses
assuntos ao verem uma mulher chorando, e embora um choro eventual
pudesse aumentar o valor da venda com negociantes de coração mole,
era mais provável que irritasse os possíveis compradores e eles a
dispensassem sem muita cerimônia, apenas com um “meus pêsames,
mas preciso trabalhar!”.
Para
sua surpresa, Lígia não se demorou muito ali: Osvaldo parecia ter
organizado tudo antes de morrer, e em uma das gavetas estavam os
projetos já no ponto para serem negociados com fabricantes da
região. Tinha projetos para relógios mais eficazes e de um estilo
visual agradável, lâmpadas mais potentes e econômicas para serem
utilizadas em postes de luz nas ruas e parques, cadeiras desmontáveis
e baratas e uma enormidade de coisas úteis.
Outras
coisas mais esquisitas também estavam na gaveta, mas Lígia achou
melhor ignorar coisas como o “papagaio mecânico comedor de
amendoins” (que, como o nome diz, era o projeto de um papagaio
mecânico que comia amendoins... que por algum motivo Osvaldo achou
que era uma boa ideia...) ou a “bota de aquecimento e
resfriamento”: botas de chumbo e níquel, semelhantes às de um
escafandro, capazes de esfriar os pés em dias quentes e esquentá-los
em dias frios.
Com
os planos em mãos, Lígia trancou o cadeado o melhor que pôde,
embora ele não se fechasse bem como antes, e foi para dentro da casa
arrumar sua mala.
Uma
hora depois, quando Lisa e Carlos chegavam da escola, Lígia já
estava pronta para ir embora.
Abraçou os filhos e ia saindo pela porta quando Lisa a chamou (Carlos, que já havia beijado a bochecha da mãe, subia correndo as escadas atrás de seu estilingue e bolinhas de gude, feliz com o fim de semana prolongado):
- Aonde
você vai, mãe?
- Olha,
vou te contar, mas não deixe o Carlos saber... eu vou vender
algumas criações do seu pai nas cidades vizinhas para
conseguirmos dinheiro... mas, Elisabete, eu te proíbo de contar
isso ao Carlos! Se ele souber que abri a oficina do pai dele, vai
querer ir lá dar uma olhada e você sabe que isso é perigoso!
- Tá
bom, mãe...
O menino
tinha uma ótima audição e sabia ser dissimulado, quando a ocasião
pedia. Sabia que o que levava a mãe a viajar nunca seria discutido
em sua frente, pois era pequeno e ela não iria querer preocupá-lo
ou mesmo não era assunto para alguém de sua idade saber. Sendo
assim corria para aproveitar ao máximo a folga de quatro dias que
teria, mas subia as escadas de ouvido atento e, mesmo com a voz baixa
da mãe, sentiu um arrepio de prazer ao ouvir a mãe falar dos planos
do pai.
Continuou
a subida para o quarto com a certeza de que a mãe havia entrado na
oficina do pai e mexido nas coisas. Se havia mexido nas coisas,
quais as chances de notar que ele havia mexido nelas, também, quando
ela voltasse? Entrou no quarto e, em segundos, com o estilingue e o
saco de bolinhas na mão, correu de volta pelo corredor, na direção
da escada que acabara de subir.
Esperou
a mãe sair pela porta e se recostou na parede do lado da escada,
olhando para baixo com um misto do medo e prazer de fazer alguma
coisa proibida pelos pais.
Ouviu a
porta se fechar e correu escada abaixo, com o sorriso, faltando um
dente, reluzindo de contentamento.
- Er...
brincar no quintal! Ó! - Levantou os objetos que trazia consigo,
para não deixar dúvidas.
- E o
dever de casa?
- Ah...
- , soltou um gemido de desgosto, - Eu faço mais tarde!
Lisa se
aproximou mais perto. O menino ficou emburrado.
- Você
ouviu o que a mãe disse pra mim.
A
surpresa ficou evidente no rosto do menino, pego no flagra.
- O quê?!
- É
isso mesmo, seu baixinho! Você ouviu o que a mãe disse pra mim!
Nem pense em chegar perto oficina do pai! Não quero saber de você
quebrando as coisas por lá! Nem vou ficar de castigo por sua causa!
- Se dirigiu à porta e a trancou, guardando a chave num dos bolsos
do vestido. - Você pode sair assim que mudar de ideia quanto a
isso!
- Mas,
mana...
- Nem
meio “mas”!
- Você
não tem curiosidade de ver o que tem lá dentro?
- Tenho, mas...
- Isso
é injusto! Você pode se lembrar do pai trabalhando lá dentro! Eu
era pequeno e nem lembro disso... só queria dar uma espiadinha... -
o menino parecia prestes a chorar, o que fez Lisa se abaixar e
colocar a mão no seu ombro.
- Carlos,
eu sei o que você quer, mas prometi à mãe te deixar longe de lá.
É perigoso...
O rosto
de Carlos se afundou no ombro de Lisa, o que impediu que a menina
visse sua máscara de pesar se tornar um sorriso perverso.
- Heim?
Pegou a
chave no vestido de Lisa e agarrou a base do vestido da irmã.
Atravessou por debaixo das pernas da garota, derrubando a numa
espécie de golpe de judô (caso pessoas lutassem judô com vestidos
ou passando debaixo das pernas dos outros).
- Ah,
seu peste!
A menina
se recuperava do tombo quando Carlos enfiou a chave na fechadura,
fazendo-a girar com um clique.
A irmã
se aproximava “soltando fogo pelas ventas”, como Carlos
descreveria, anos mais tarde, em seu futuro diário. Botou uma
bolinha de gude no estilingue e acertou, com precisão absurda!, o
solado do pé da irmã, fazendo-a cair novamente.
Temendo
pela vida, Carlos atravessou a porta e a trancou por fora, o mais
rapidamente possível. Lisa deu a volta no salão da entrada em busca
da janela mais próxima. Forçou a trava com força e ela não cedeu.
Insistiu sem sucesso até que pegou uma estatueta de metal na mesinha
do lado e a usou para bater na trava, abrindo-a com velocidade
espantosa.
Pulou a
janela e correu atrás do irmão, que via passar como um raio, se
escondendo atrás de árvores e bancos no quintal espaçoso. Já era
noite e aquela brincadeira de pega se prolongou por alguns instantes,
até que os ruídos do que ela achou ser Carlos correndo pelo quintal
a atraíram para um canto bastante distante da oficina de Osvaldo.
Saltou de detrás de uma árvore gritando “Peguei!” quando notou
que quem produzia o barulho era um gato. Foi quando ouviu o barulho
do cadeado, estragado desde o começo da tarde, se partindo com
facilidade e o rangido das dobradiças enferrujadas cedendo passagem
ao menino.
Correu
até o galpão, abriu a porta, entrou e colocou a mão no ombro do
menino, que de tão absorto pelo que via, se assustou. Era o plano de
Lisa, novamente, gritar “Peguei!”, mas ficou sem palavras ao
notar o quanto suas lembranças da oficina do pai, mesmo com a luz
apagada e sem conseguir ver pouco mais que alguns metros à frente,
não faziam jus à oficina real.




