terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

CAPÍTULO 1: A IDEIA






1921.



É verdadeiramente difícil lidar com a perda de um ente querido, mas a vida segue e com a família de Osvaldo também foi assim.

Dois anos se passaram. Foram dois anos de luto e de um aprendizado sobre como viver na nova situação: Osvaldo era quem cuidava da esposa e filhos, sem ele, Lígia precisaria descobrir um novo jeito de conseguir sustentar a família. Ela poderia deixar seus filhos trabalharem, como muitos pais da época fariam, mas essa alternativa não era muito agradável. Seriam empregos duros e, em muitos deles, prejudiciais à saúde ou em condições de semi-escravidão. Não poderia arriscar perder os filhos, também.

Tinha alternativas. Não tinha pensado nelas ainda pois a situação ainda não era tão desesperadora: viviam com uma pequena quantia entregue dentro de um envelope toda semana, quase sempre por um garoto diferente, pouco mais velhos que Carlos em sua maioria. Não fazia ideia de quem mandava essa quantia e o fato dos entregadores serem diferentes denotava a vontade do benfeitor de não querer ser descoberto. Suspeitava que fossem amigos da família que enviavam o dinheiro e, para evitar constrangimentos, preferiam o anonimato.

Mas agora a situação apertava. O envelope continha praticamente a mesma quantidade de dinheiro que começou a receber seis meses após a morte do marido. Os preços das compras aumentavam, o dinheiro era o mesmo.

Era uma família que tinha boas condições financeiramente, incluindo o ótimo casarão em que moravam havia algumas gerações. O envelope era bem-vindo, claro! Mas, em si, nem de longe o suficiente para sustentar aquela casa que conhecia certos padrões de vida que, mesmo sem ostentação, podiam custar bastante dinheiro: a iluminação do casarão, os jantares bons e pequenos mimos que Lígia achava importante proporcionar aos filhos cujas vidas se encontravam tão encobertas pelo luto.

Ao longo de dois anos, esse dinheiro gasto com parcimônia e regularidade já mostrava sinais de esgotamento.

Agora, com o desespero batendo à porta, Lígia sabia que encontraria uma solução para os problemas familiares. Se Lisa era boa em fazer as coisas por instinto, Lígia era ótima em fazer as coisas sob pressão. Era bastante criativa, traço que a levou a se aproximar de Osvaldo, e suas soluções, longe de serem geniais no sentido que mais facilmente usamos, eram geniais em sua simplicidade: quando falava bastante conseguia tudo que queria.

Fazia Lisa largar suas invenções para ir almoçar e quando Carlos não queria tomar banho, conversava com ele por 15 minutos, ao término dos quais, Carlos pensava em tudo que perdia se não tomasse seu banho imediatamente. Logo parecia ansioso para entrar na banheira e se entregar aos prazeres da água... Era só quando já estava imerso nela e com o cabelo ensaboado pela mãe que notava que havia sido tapeado, lembrava-se do quanto odiava aquela banheira e jurava que nunca mais cairia nesse truque de novo... Mas sempre cairia.

Foi o desespero de imaginar os filhos trabalhando em péssimas condições, perdendo suas infâncias e, também, a possibilidade de estudar que a solução pipocou em sua mente.

Osvaldo era um ótimo inventor, ninguém na região negava. Alguns diriam que suas invenções baratas eram inúteis e as úteis incrivelmente caras. Preferiam as alternativas baratas e de qualidade inferior, o que frustrava bastante o inventor. Ocasionalmente alguém comprava algo criado por ele e se encantava com aquilo, se desmanchava em elogios e financeiramente era arruinado pelos próximos anos.

Quando Osvaldo era adolescente, um russo viajou por inúmeros quilômetros, pois havia ouvido sobre uma invenção maravilhosa e que seria um presente ideal para o imperador, ou czar, como ainda era comumente chamado na época.

Foi com surpresa que o jovem inventor abriu as portas de sua oficina para o homem alto, simpático e de sorriso fácil. Imaginava que os únicos presentes que imperadores russos recebiam eram aqueles magníficos ovos feitos pelas mais perfeitas técnicas de relojoaria e encrustados de joias caríssimas. Osvaldo imaginava, também, que isso estragava completamente a surpresa na hora de abrir os presentes, em suas embalagens, ovais e reveladoras de conteúdo a alguém com um mínimo de inteligência e memória sobre os aniversários e natais passados.

Logo que entrou na oficina do jovem inventor, o viajante russo teve seu olhar atraído por um enorme volume que se encontrava encostado em um dos cantos da oficina. Após insistir muito para ver do que se tratava Osvaldo decidiu dar aquele homem o que ele tanto queria.

O russo ficou maravilhado quando Osvaldo tirou o pano de cima da invenção. Era um piano de cauda, enorme!

Sem teclas e modificado, o piano possuía um mecanismo bizarramente horrível em cima do tampo, com um minúsculo relógio em sua lateral, que dava para a direção onde deveriam ficar as teclas do instrumento. Era o pequeno relógio, de uns 10 centímetros de diâmetro, que era a peça principal da invenção. Todo o resto era apenas o mecanismo que o fazia funcionar.

Era um trambolho enorme que tinha a função de dizer as horas a quem apertasse um grande botão de prata no local onde ficariam as teclas do instrumento. Ao apertá-lo, um mecanismo analisava as horas no mostrador e enviava a informação para um sistema que selecionava as notas a serem tocadas, de modo a vibrar as cordas do piano criando, assim, algo que é semelhante a uma voz robótica: a voz “pianótica”.

A voz pianótica dava as horas de modo bastante impressionante. Quando o russo apertou o botão de prata e o piano disse “Sam dez horuas, quinse menutos” em sua voz musicada e quase incompreensível, os olhos do homem brilhavam e uma pequena lágrima de emoção escorreu do canto de seu olho e não aceitou “não” como resposta, mesmo com Osvaldo dizendo que era um protótipo, que ainda não funcionava corretamente, que o preço do objeto já seria enorme e que o russo gastaria ainda mais para levar as 5 toneladas do objeto para a Rússia.

Osvaldo aceitou vender a peça. E, a bem da verdade, o transporte não saiu tão caro quanto o esperado, pois Osvaldo errou na hora de calcular o peso e o objeto pesava meros 3750 quilos.






A quantidade de dinheiro que recebeu pelo objeto era uma pequena fortuna, mas o russo achou que ela valeu a pena completamente, pois, após entregá-lo ao imperador, caiu nas graças da elite russa. Principalmente nas graças do próprio czar, já enjoado de receber, desde a infância e em toda celebração, ovos que são obras-primas da relojoaria e recobertos de pedras preciosas.

O czar se empolgou tanto que sequer se decepcionou ao descobrir que o objeto estava regulado para o idioma português e não russo. Para resolver o problema, contratou um professor particular de português e foi absolutamente feliz com o presente recebido, dando uma medalha a quem lhe presenteou e enviando outra ao Brasil, a casa de Osvaldo, com todas as honrarias que ele merecia pelo invento.

Receber esse prêmio renovou o interesse do inventor nessa invenção que lhe rendeu tanta alegria e, dois meses depois, fez uma segunda versão, que funcionava bem melhor que a anterior, com voz cristalina e pesando meros 150 gramas, o que a tornava passível de ser levada no bolso do paletó.

Foi lembrando-se de histórias como essa que Lígia pensou que com os projetos deixados pelo marido, mais sua habilidade de convencimento, os problemas financeiros da família poderiam ter fim, pelo menos pelos próximos meses, e isso já era um alento!

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