1921.
É
verdadeiramente difícil lidar com a perda de um ente querido, mas a
vida segue e com a família de Osvaldo também foi assim.
Dois
anos se passaram. Foram dois anos de luto e de um aprendizado sobre
como viver na nova situação: Osvaldo era quem cuidava da esposa e
filhos, sem ele, Lígia precisaria descobrir um novo jeito de
conseguir sustentar a família. Ela poderia deixar seus filhos
trabalharem, como muitos pais da época fariam, mas essa alternativa
não era muito agradável. Seriam empregos duros e, em muitos deles,
prejudiciais à saúde ou em condições de semi-escravidão. Não
poderia arriscar perder os filhos, também.
Tinha
alternativas. Não tinha pensado nelas ainda pois a situação ainda
não era tão desesperadora: viviam com uma pequena quantia entregue
dentro de um envelope toda semana, quase sempre por um garoto
diferente, pouco mais velhos que Carlos em sua maioria. Não fazia
ideia de quem mandava essa quantia e o fato dos entregadores serem
diferentes denotava a vontade do benfeitor de não querer ser
descoberto. Suspeitava que fossem amigos da família que enviavam o
dinheiro e, para evitar constrangimentos, preferiam o anonimato.
Mas
agora a situação apertava. O envelope continha praticamente a mesma
quantidade de dinheiro que começou a receber seis meses após a
morte do marido. Os preços das compras aumentavam, o dinheiro era o
mesmo.
Era
uma família que tinha boas condições financeiramente, incluindo o
ótimo casarão em que moravam havia algumas gerações. O envelope
era bem-vindo, claro! Mas, em si, nem de longe o suficiente para
sustentar aquela casa que conhecia certos padrões de vida que, mesmo
sem ostentação, podiam custar bastante dinheiro: a iluminação do
casarão, os jantares bons e pequenos mimos que Lígia achava
importante proporcionar aos filhos cujas vidas se encontravam tão
encobertas pelo luto.
Ao
longo de dois anos, esse dinheiro gasto com parcimônia e
regularidade já mostrava sinais de esgotamento.
Agora,
com o desespero batendo à porta, Lígia sabia que encontraria uma
solução para os problemas familiares. Se Lisa era boa em fazer as
coisas por instinto, Lígia era ótima em fazer as coisas sob
pressão. Era bastante criativa, traço que a levou a se aproximar de
Osvaldo, e suas soluções, longe de serem geniais no sentido que
mais facilmente usamos, eram geniais em sua simplicidade: quando
falava bastante conseguia tudo que queria.
Fazia
Lisa largar suas invenções para ir almoçar e quando Carlos não
queria tomar banho, conversava com ele por 15 minutos, ao término
dos quais, Carlos pensava em tudo que perdia se não tomasse seu
banho imediatamente. Logo parecia ansioso para entrar na banheira e
se entregar aos prazeres da água... Era só quando já estava imerso
nela e com o cabelo ensaboado pela mãe que notava que havia sido
tapeado, lembrava-se do quanto odiava aquela banheira e jurava que
nunca mais cairia nesse truque de novo... Mas sempre cairia.
Foi
o desespero de imaginar os filhos trabalhando em péssimas condições,
perdendo suas infâncias e, também, a possibilidade de estudar que a
solução pipocou em sua mente.
Osvaldo
era um ótimo inventor, ninguém na região negava. Alguns diriam que
suas invenções baratas eram inúteis e as úteis incrivelmente
caras. Preferiam as alternativas baratas e de qualidade inferior, o
que frustrava bastante o inventor. Ocasionalmente alguém comprava
algo criado por ele e se encantava com aquilo, se desmanchava em
elogios e financeiramente era arruinado pelos próximos anos.
Quando
Osvaldo era adolescente, um russo viajou por inúmeros quilômetros,
pois havia ouvido sobre uma invenção maravilhosa e que seria um
presente ideal para o imperador, ou czar, como ainda era comumente
chamado na época.
Foi
com surpresa que o jovem inventor abriu as portas de sua oficina para
o homem alto, simpático e de sorriso fácil. Imaginava que os únicos
presentes que imperadores russos recebiam eram aqueles magníficos
ovos feitos pelas mais perfeitas técnicas de relojoaria e
encrustados de joias caríssimas. Osvaldo imaginava, também, que
isso estragava completamente a surpresa na hora de abrir os
presentes, em suas embalagens, ovais e reveladoras de conteúdo a
alguém com um mínimo de inteligência e memória sobre os
aniversários e natais passados.
Logo
que entrou na oficina do jovem inventor, o viajante russo teve seu
olhar atraído por um enorme volume que se encontrava encostado em um
dos cantos da oficina. Após insistir muito para ver do que se
tratava Osvaldo decidiu dar aquele homem o que ele tanto queria.
O
russo ficou maravilhado quando Osvaldo tirou o pano de cima da
invenção. Era um piano de cauda, enorme!
Sem teclas e modificado, o piano possuía um mecanismo bizarramente horrível em cima do tampo, com um minúsculo relógio em sua lateral, que dava para a direção onde deveriam ficar as teclas do instrumento. Era o pequeno relógio, de uns 10 centímetros de diâmetro, que era a peça principal da invenção. Todo o resto era apenas o mecanismo que o fazia funcionar.
Sem teclas e modificado, o piano possuía um mecanismo bizarramente horrível em cima do tampo, com um minúsculo relógio em sua lateral, que dava para a direção onde deveriam ficar as teclas do instrumento. Era o pequeno relógio, de uns 10 centímetros de diâmetro, que era a peça principal da invenção. Todo o resto era apenas o mecanismo que o fazia funcionar.
Era
um trambolho enorme que tinha a função de dizer as horas a quem
apertasse um grande botão de prata no local onde ficariam as teclas
do instrumento. Ao apertá-lo, um mecanismo analisava as horas no
mostrador e enviava a informação para um sistema que selecionava as
notas a serem tocadas, de modo a vibrar as cordas do piano criando,
assim, algo que é semelhante a uma voz robótica: a voz “pianótica”.
A
voz pianótica dava as horas de modo bastante impressionante. Quando
o russo apertou o botão de prata e o piano disse “Sam dez horuas,
quinse menutos” em sua voz musicada e quase incompreensível, os
olhos do homem brilhavam e uma pequena lágrima de emoção escorreu
do canto de seu olho e não aceitou “não” como resposta, mesmo
com Osvaldo dizendo que era um protótipo, que ainda não funcionava
corretamente, que o preço do objeto já seria enorme e que o russo
gastaria ainda mais para levar as 5 toneladas do objeto para a
Rússia.
Osvaldo
aceitou vender a peça. E, a bem da verdade, o transporte não saiu
tão caro quanto o esperado, pois Osvaldo errou na hora de calcular o
peso e o objeto pesava meros 3750 quilos.
A
quantidade de dinheiro que recebeu pelo objeto era uma pequena
fortuna, mas o russo achou que ela valeu a pena completamente, pois,
após entregá-lo ao imperador, caiu nas graças da elite russa.
Principalmente nas graças do próprio czar, já enjoado de receber,
desde a infância e em toda celebração, ovos que são obras-primas
da relojoaria e recobertos de pedras preciosas.
O
czar se empolgou tanto que sequer se decepcionou ao descobrir que o
objeto estava regulado para o idioma português e não russo. Para
resolver o problema, contratou um professor particular de português
e foi absolutamente feliz com o presente recebido, dando uma medalha
a quem lhe presenteou e enviando outra ao Brasil, a casa de Osvaldo,
com todas as honrarias que ele merecia pelo invento.
Receber
esse prêmio renovou o interesse do inventor nessa invenção que lhe
rendeu tanta alegria e, dois meses depois, fez uma segunda versão,
que funcionava bem melhor que a anterior, com voz cristalina e
pesando meros 150 gramas, o que a tornava passível de ser levada no
bolso do paletó.
Foi
lembrando-se de histórias como essa que Lígia pensou que com os
projetos deixados pelo marido, mais sua habilidade de convencimento,
os problemas financeiros da família poderiam ter fim, pelo menos
pelos próximos meses, e isso já era um alento!

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