sábado, 23 de fevereiro de 2013

PRÓLOGO



 1919.



O barulho chegou aveludado através das grossas paredes.

Em meio segundo, Lisa já estava fora da cama, assustada, e, pé ante pé, andou pelo corredor escuro, rente à parede. Olhos arregalados. Sentidos aguçados pelo medo do desconhecido. Mãos frias e tremendo. Uma dor na base da nuca. A necessidade de correr ou lutar poderia se fazer presente e ela, instintivamente, sabia disso.

Era boa em fazer as coisas por instinto.

A mão arrastando pela parede encontrou algo quente e de textura suave que respondeu ao toque com uma súbita liberação do ar dos pulmões na forma de um "Ah!". A voz sussurrada da menina se fez notar no corredor:


- Carlos!

- Que barulho foi aquele?!

- Não faço ideia! Entre no quarto e tranque a porta! Vou chamar o pai! Ele sempre sabe o que fazer!


Carlos não tinha mais que 6 anos de idade e era irmão mais novo de Lisa. Era um pequeno diabo: suas invenções, invariavelmente, eram feitas de modo a ajudá-lo a colar nas provas ou enfrentar os valentões da escola. Nunca funcionavam como ele pretendia, o que lhe rendia de visitas semanais ao escritório do diretor a castigos impostos pela professora.

O garoto ostentava cada hematoma, causado pelo mau uso de sua mais nova invenção, como se fosse uma cicatriz de guerra, algo que o tornasse maior do que seus parcos centímetros de altura, que os outros alunos sempre faziam questão de apontar.





Apesar da vida escolar conturbada, era um bom menino e tinha uma carinho imenso pela irmã, sendo assim, fez o que ela lhe pediu, com o acréscimo de mover o pequeno armário ao lado da porta para detrás dela, de modo que não pudessem forçar a entrada por aquele caminho. O barulho do móvel sendo arrastado fez a garota parar por um instante. Não tinha a menor ideia do que estava ocorrendo, apenas sabia que algo dentro dos muros da propriedade que, há algumas poucas gerações, era de sua família havia feito um barulho forte suficiente para acordá-la. Pior: havia acordado Carlos, algo que ela, empiricamente, havia notado como sendo quase impossível por meios naturais.

Assim sendo, esperava que seus ouvidos, mais uma vez, se acostumassem àquele silêncio que, aos poucos, retomava sua continuidade após a interferência do móvel sendo movido. Estava no escuro, literal e metaforicamente, e não se arriscaria a atravessar os próximos cinco metros até o quarto dos pais sem estar com os sentidos afiados.

Os pés descalços usavam o tapete comprido como guia. Lisa poderia ter percorrido o local mil vezes antes de se descuidar e esbarrar em algum móvel do local, mas a cautela exercida naquele momento distorcia sua noção espacial. Era uma coisa andar no escuro, outra bem diferente era se arrastar com o medo pulsando em seus ouvidos como se fosse um tambor em intervalos regulares: não fosse o tapete, seu corpo seria um barco a navegar por um mar sem qualquer ponto de referência. Era o tapete o seu farol, o quarto dos pais seu porto seguro.

Após o que pareceram ser minutos, a menina chegou ao quarto dos pais para encontrar a porta semiaberta e a luz da Lua, pela janela, iluminando o interior vazio.

Entrou e trancou a porta atrás de si. Sabia que seu pai, não estando ali, estaria em sua oficina construída a poucos meses, dentro do lote, a poucos metros do casarão. Foi à janela ver, com algum esforço – pois, daquele ponto de vista, a parede da casa encobria parte do local -, que uma fina linha de fumaça se erguia, vagarosamente, como se o pior de um incêndio tivesse passado, e se isso alarmou Lisa, ver sua mãe sentada, em um dos bancos no quintal, com as mãos cobrindo o rosto foi o que definitivamente lhe trouxe um misto de alívio e horror.

Abriu a porta e saiu correndo para o encontro com a mãe. Em sua mente, o mistério do estrondo começava a se desvelar. Notava que seu irmão não corria perigo. Ela própria não corria perigo. Sua mãe não corria perigo. Seu pai...

... foi ao pensar no pai que todo o seu corpo foi percorrido por uma gélida onda de choque.

Sabia que algo estava errado e em sua mente só podia ser uma a conclusão do caso. Era seu instinto que apontava isso e ele não costumava errar.

Por isso que foi com pesar, mas não com surpresa, que a menina ouviu a mãe dizer de súbito, no exato momento em que se encontrou com ela no banco debaixo da árvore, "Seu pai sofreu um acidente".

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