segunda-feira, 4 de março de 2013

CAPÍTULO 2: O CADEADO ESTROPIADO



Lígia odiava a ideia de ter que reabrir a oficina de Osvaldo.



Havia trancado o lugar com um cadeado gigante, agora enferrujado. Queria, com isso, evitar ter que lidar com o luto de mais uma forma, algo com que já lidava em tantas esferas de sua vida familiar, e prevenir acidentes com os filhos. Osvaldo era um homem adulto e morreu ali, pelo que todos concluíram, graças a um descuido durante o trabalho. Quem poderia dizer quais perigos ainda estavam ali?



Com calma pegou a chave de dentro de um móvel bem alto em seu quarto, onde ficava escondida, e se dirigiu à oficina. Não precisava ter pressa, seus filhos estavam na escola.



Colocou a chave no cadeado com algum esforço, pois a ferrugem também atingira o interior do objeto. Girar foi mais fácil e fez com que caísse do cadeado uma pequena quantidade de um pó metálico laranja. Um puxão pra baixo e o cadeado se desfez em dois, irritando Lígia, que juntou as duas partes o melhor que pôde e o pendurou na ilhota onde prendia os dois lados da porta e a empurrou.



Não se lembrava da oficina como um local escuro e poeirento, mas agora era um local escuro e poeirento. Acendeu um lampião que ficava em cima da mesinha ao lado da entrada, pois a lâmpada no teto não funcionava mais, e percorreu o lugar, recordando o que havia ocorrido dois anos atrás. Não sentia necessidade de ficar triste, apesar da melancolia que se abateu sobre ela: sabia que precisava estudar o local, escolher os planos das invenções que parecessem mais prováveis de serem vendidas e tudo isso teria relação com o futuro dos filhos.



Não podia fraquejar, precisava ser uma ótima mulher de negócios quando fosse vender os esquemas, mas essa atitude precisava começar agora: sabia que homens de negócios não sabem lidar muito bem com esses assuntos ao verem uma mulher chorando, e embora um choro eventual pudesse aumentar o valor da venda com negociantes de coração mole, era mais provável que irritasse os possíveis compradores e eles a dispensassem sem muita cerimônia, apenas com um “meus pêsames, mas preciso trabalhar!”.



Para sua surpresa, Lígia não se demorou muito ali: Osvaldo parecia ter organizado tudo antes de morrer, e em uma das gavetas estavam os projetos já no ponto para serem negociados com fabricantes da região. Tinha projetos para relógios mais eficazes e de um estilo visual agradável, lâmpadas mais potentes e econômicas para serem utilizadas em postes de luz nas ruas e parques, cadeiras desmontáveis e baratas e uma enormidade de coisas úteis.



Outras coisas mais esquisitas também estavam na gaveta, mas Lígia achou melhor ignorar coisas como o “papagaio mecânico comedor de amendoins” (que, como o nome diz, era o projeto de um papagaio mecânico que comia amendoins... que por algum motivo Osvaldo achou que era uma boa ideia...) ou a “bota de aquecimento e resfriamento”: botas de chumbo e níquel, semelhantes às de um escafandro, capazes de esfriar os pés em dias quentes e esquentá-los em dias frios.



Com os planos em mãos, Lígia trancou o cadeado o melhor que pôde, embora ele não se fechasse bem como antes, e foi para dentro da casa arrumar sua mala.



Uma hora depois, quando Lisa e Carlos chegavam da escola, Lígia já estava pronta para ir embora.



- Lisa, preciso fazer uma viagem urgentemente e você vai ficar cuidando do Carlos. Qualquer problema que você tiver, não hesite em falar com os vizinhos! Eu avisei os dois que devo voltar só segunda-feira e pedi que dessem uma checada em vocês de vez em quando, tá? Também avisei o diretor da sua escola que vocês não poderão ir nesses dois dias antes do final de semana.


Abraçou os filhos e ia saindo pela porta quando Lisa a chamou (Carlos, que já havia beijado a bochecha da mãe, subia correndo as escadas atrás de seu estilingue e bolinhas de gude, feliz com o fim de semana prolongado):


- Aonde você vai, mãe?

- Olha, vou te contar, mas não deixe o Carlos saber... eu vou vender algumas criações do seu pai nas cidades vizinhas para conseguirmos dinheiro... mas, Elisabete, eu te proíbo de contar isso ao Carlos! Se ele souber que abri a oficina do pai dele, vai querer ir lá dar uma olhada e você sabe que isso é perigoso!

- Tá bom, mãe...


O menino tinha uma ótima audição e sabia ser dissimulado, quando a ocasião pedia. Sabia que o que levava a mãe a viajar nunca seria discutido em sua frente, pois era pequeno e ela não iria querer preocupá-lo ou mesmo não era assunto para alguém de sua idade saber. Sendo assim corria para aproveitar ao máximo a folga de quatro dias que teria, mas subia as escadas de ouvido atento e, mesmo com a voz baixa da mãe, sentiu um arrepio de prazer ao ouvir a mãe falar dos planos do pai.



Continuou a subida para o quarto com a certeza de que a mãe havia entrado na oficina do pai e mexido nas coisas. Se havia mexido nas coisas, quais as chances de notar que ele havia mexido nelas, também, quando ela voltasse? Entrou no quarto e, em segundos, com o estilingue e o saco de bolinhas na mão, correu de volta pelo corredor, na direção da escada que acabara de subir.



Esperou a mãe sair pela porta e se recostou na parede do lado da escada, olhando para baixo com um misto do medo e prazer de fazer alguma coisa proibida pelos pais.



Ouviu a porta se fechar e correu escada abaixo, com o sorriso, faltando um dente, reluzindo de contentamento.



- Aonde você pensa que vai? - Lisa, sentada no sofá, severa, olhava para ele.

- Er... brincar no quintal! Ó! - Levantou os objetos que trazia consigo, para não deixar dúvidas.

- E o dever de casa?

- Ah... - , soltou um gemido de desgosto, - Eu faço mais tarde!
 


Lisa se aproximou mais perto. O menino ficou emburrado.



- Você ouviu o que a mãe disse pra mim.




A surpresa ficou evidente no rosto do menino, pego no flagra.


- O quê?!

- É isso mesmo, seu baixinho! Você ouviu o que a mãe disse pra mim! Nem pense em chegar perto oficina do pai! Não quero saber de você quebrando as coisas por lá! Nem vou ficar de castigo por sua causa! - Se dirigiu à porta e a trancou, guardando a chave num dos bolsos do vestido. - Você pode sair assim que mudar de ideia quanto a isso!

- Mas, mana...

- Nem meio “mas”!

- Você não tem curiosidade de ver o que tem lá dentro?

- Tenho, mas...

- Isso é injusto! Você pode se lembrar do pai trabalhando lá dentro! Eu era pequeno e nem lembro disso... só queria dar uma espiadinha... - o menino parecia prestes a chorar, o que fez Lisa se abaixar e colocar a mão no seu ombro.

- Carlos, eu sei o que você quer, mas prometi à mãe te deixar longe de lá. É perigoso...




O rosto de Carlos se afundou no ombro de Lisa, o que impediu que a menina visse sua máscara de pesar se tornar um sorriso perverso.



- Sabe que ser baixinho tem suas vantagens?

- Heim?




Pegou a chave no vestido de Lisa e agarrou a base do vestido da irmã. Atravessou por debaixo das pernas da garota, derrubando a numa espécie de golpe de judô (caso pessoas lutassem judô com vestidos ou passando debaixo das pernas dos outros).



- Ah, seu peste!




A menina se recuperava do tombo quando Carlos enfiou a chave na fechadura, fazendo-a girar com um clique.



A irmã se aproximava “soltando fogo pelas ventas”, como Carlos descreveria, anos mais tarde, em seu futuro diário. Botou uma bolinha de gude no estilingue e acertou, com precisão absurda!, o solado do pé da irmã, fazendo-a cair novamente.



Temendo pela vida, Carlos atravessou a porta e a trancou por fora, o mais rapidamente possível. Lisa deu a volta no salão da entrada em busca da janela mais próxima. Forçou a trava com força e ela não cedeu. Insistiu sem sucesso até que pegou uma estatueta de metal na mesinha do lado e a usou para bater na trava, abrindo-a com velocidade espantosa.



Pulou a janela e correu atrás do irmão, que via passar como um raio, se escondendo atrás de árvores e bancos no quintal espaçoso. Já era noite e aquela brincadeira de pega se prolongou por alguns instantes, até que os ruídos do que ela achou ser Carlos correndo pelo quintal a atraíram para um canto bastante distante da oficina de Osvaldo. Saltou de detrás de uma árvore gritando “Peguei!” quando notou que quem produzia o barulho era um gato. Foi quando ouviu o barulho do cadeado, estragado desde o começo da tarde, se partindo com facilidade e o rangido das dobradiças enferrujadas cedendo passagem ao menino.



Correu até o galpão, abriu a porta, entrou e colocou a mão no ombro do menino, que de tão absorto pelo que via, se assustou. Era o plano de Lisa, novamente, gritar “Peguei!”, mas ficou sem palavras ao notar o quanto suas lembranças da oficina do pai, mesmo com a luz apagada e sem conseguir ver pouco mais que alguns metros à frente, não faziam jus à oficina real.

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